Quando Jesus foi levado a Pilatos, acusado, humilhado e pressionado pela política e religiosos daquele tempo, algo chama a nossa atenção, Ele se recusa a se defender. A cena causa estranheza, pois confronta um dos impulsos mais ativos da humanidade que é a necessidade constante de se justificar.
Em nossa civilização atual, o valor da pessoa frequentemente parece depender de sua necessidade de convencer. A reputação se tornou um tribunal permanente. Nas redes sociais, nos ambientes profissionais, nas relações interpessoais e até nos templos religiosos, a lógica predominante é a da defesa continua da própria imagem, de forma que o indivíduo moderno vive sob julgamento constante. Por isso o silêncio de Jesus perante Pilatos não se tratava de fraqueza, tampouco desprezo pela verdade.
Nesse sentido, Jesus não silencia porque desconhece sua inocência, mas exatamente porque a conhece plenamente. Seu silêncio nasce de uma consciência moral que já não depende da validação das estruturas humanas para existir. Há uma diferença enorme entre silêncio de quem se omite por medo e o silêncio de quem transcende a necessidade de aprovação.
Sob a perspectiva jurídica, esse episódio dialoga de maneira surpreendente com um dos princípios mais relevantes do estado democrático de direito moderno: o direito ao silêncio e a vedação da autoincriminação. No direito brasileiro, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Trata-se de uma garantia civilizatória fundamental porque reconhece que a dignidade da pessoa humana não pode ser condicionada à compulsoriedade da autodefesa.
Esse princípio jurídico representa o conhecimento de que o valor do indivíduo não desaparece diante da acusação. Mesmo investigado, mesmo julgado, o ser humano continua sendo titular de uma esfera íntima inviolável, a ponto de tal percepção se aproximar profundamente da visão espírita acerca do espírito imortal.
Isso porque, a doutrina espírita não reduz o indivíduo ao instante da acusação social nem ao erro eventual que tenha cometido. Pelo contrário, a doutrina demonstra que o espírito se encontra em processo continuo de aprimoramento e os erros fazem parte dessa mudança interna, sem falar na reconstrução moral e ética.
Atualmente a sociedade se encontra dominada pela ansiedade da exposição. Sofre-se não apenas pela dor real, mas pela necessidade de administrar a opinião alheia sobre a dor. Nota-se que muitos indivíduos já não sabem existir sem justificar permanentemente suas escolhas, pensamentos, fracassos ou cicatrizes. A alma moderna se encontra exausta porque tenta controlar tribunais impossíveis, tais como os julgamentos emocionais, sociais e virtuais, sem perceber inteiramente que o problema é que nenhuma defesa humana consegue satisfazer plenamente consciências determinadas a condenar.
O espiritismo oferece contribuição extremamente lúcida nesse debate ao recordar que a justiça divina não opera segundo a velocidade das paixões humanas. A justiça terrestre é necessária, indispensável e representa conquista civilizatória fundamental. Sem ela prevaleceria a barbárie. Entretanto, a própria experiência histórica demonstra sua limitação. Tribunais absolvem culpados. Condenam inocentes. A opinião pública destrói reputações sem provas definitivas. Pessoas são reduzidas a versões simplificadas de si mesmas.
A justiça divina não erra, pois o culpado cedo ou tarde pagará na mesma moeda ou se transformando interiormente. Quantos livros encontramos em que um assassino desperta para o bem e pede pra corrigir seus erros do passado, outros casos em que aquele que prejudicou determinada pessoa pede para nascer como pai amoroso, são inúmeros os casos relatados, é lógico que isso nem sempre acalma o coração de quem foi injustiçado, por isso a justiça humana está aí para resolver essa parte física, mas tenha certeza que nenhuma injustiça ficará impune para a justiça divina.
Se você foi injustiçado, está sendo caluniado e não consegue justiça, respire fundo, ore e peça a espiritualidade maior para acalmar seu coração. Um coração calmo consegue ter discernimento e paciência para esperar por dias melhores. Lembre-se, nada passa impune perante a justiça divina, se não nessa vida, na próxima certamente haverá justiça.
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