quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Quando o espírito se perde em ilusões

                            Na morte física, pressupõe-se que vamos acordar lúcidos no plano espiritual, mas nem sempre é assim. Muitos espíritos não percebem que estão vivendo no plano extra físico, continuam a andar pelas ruas, ir para o trabalho, tentam interagir com seus familiares. Veem-se ainda no corpo, presos a sensações, cheiros e ruídos. Vivem sem saber de onde estão e dentro de suas próprias crenças.
                       O espiritismo nos ensina que o espírito não muda de natureza ao desencarnar, ele apenas muda de dimensão, saí do plano físico e vai para o plano espiritual. Leva consigo as ideias, os valores e convicções que formou em vida. Dessa foram, o católico devoto pode imaginar-se diante de anjos e demônios, o materialista pode acreditar que ainda vive entre os vivos, o vaidoso pode continuar preso à aparência que perdeu. Cada qual envolto em suas representações, permanece por algum tempo cativo de sua visão do mundo.
                        Allan Kardec explica este fenômeno em o Livro dos espíritos, questão 966: Por que das penas e gozos da vida futura faz o homem, às vezes, tão grosseira e absurda ideia? Resposta: Inteligência que ainda não se desenvolveu o bastante. Compreende a criança as coisas como um adulto? À medida, porém, que o homem se instrui, melhor vai compreendendo o que sua linguagem não pode exprimir.
                          Kardec nos mostra que o ser humano cria imagens do além de acordo com seu grau de entendimento. Como não consegue explicar o que está fora da matéria, usa comparações e figuras.Com o tempo, passou a tomar essas figuras como verdades literais. Dessa, forma nasceram as visões de céu e inferno como lugares físicos, quando na verdade representam estados da alma. Quando o espírito desencarna, leva consigo essas mesmas ideias. É por isso que muitos permanecem presos a visões ilusórias, acreditando estar em castigo, em sono profundo ou em uma realidade idêntica a terrena. Essa é a consequência natural de uma vida sem reflexão sobre a própria natureza espiritual.
                           A vida espiritual é um reflexo da consciência. Essa diferença de percepção mostra que a entrada no mundo espiritual não é igual para todos, pois cada espírito experimenta o retorno segundo o nível de elevação moral e entendimento alcançado. Enquanto alguns despertam em total confusão e remorso, outros são recebidos com ternura e paz. É nesse ponto que Kardec aprofunda o tema e aborda um dos momentos mais consoladores da vida após a morte, o reencontro com aqueles que partiram antes.
                             Questão 160: O espírito se encontra imediatamente com os que conheceu na terra e que morreram antes dele? Resposta: Sim, conforme a afeição que lhes votava e a que eles lhe consagravam. Muitas vezes aqueles seus conhecidos o vem receber à entrada do mundo dos espíritos e o ajudam a desligar-se das vibrações da matéria. Encontra-se com muitos dos que conheceu e perdeu de vista durante a sua vida terrena. Vê os que estão na erraticidade, como vê os encarnados e os vai visitar.
                               Esses reencontros são descritos como momentos de conforto. Mostram que o amor continua a unir as almas e que ele é uma das forças que ajudam o espírito a se libertar das ilusões criadas por sua mente. O reencontro com aqueles que o amam, atua como um chamado a realidade espiritual, despertando-o para a dimensão mais clara da existência.
                               Essa influência do amor revela um princípio mais amplo sobre a vida além da matéria, o espírito vive no ambiente em que o próprio pensamento construiu. Emmanuel nos ensina que o espírito vive no clima mental que cria, mostrando que crenças e sentimentos moldam não apenas o que se sente, mas o próprio espaço em que se vive. O espírito André Luiz confirmou essa lei mental, ao descrever espíritos que permanecem presos à terra, repetindo hábitos e sofrimentos, sem perceber que já não estão vivos fisicamente. Vivem dentro das formas que o pensamento produz, prisões ou jardins, conforme o estado da alma.
                                Desfazer a ilusão é portanto, um ato de coragem e ternura. É aceitar que o mundo espiritual não está distante e nem é estranho, é o reflexo ampliado do que somos. Quem vive preso às sombras teme a claridade, que se abre a verdade passa a irradia-la. No fim, o despertar espiritual é justamente isso: aprender a acender a luz por dentro, até que ela seja forte o bastante para iluminar o próprio caminho, e pela força do exemplo, o caminho dos outros.

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