Era uma noite como outra qualquer, fiz minhas orações e fechei meus olhos para dormir, de repente me vejo ao lado do meu corpo, observo o ambiente, tudo calmo e durmo tranquilamente. Me pergunto mentalmente para onde devo ir. Imediatamente ouço uma voz conhecida:
Era Jorge, um dos espíritos que me acompanham no trabalho em desdobramento. Na verdade, não sei se sou eu que acompanho o trabalho ao lado dele ou vice versa, mas nos conhecemos há muitos anos, somos amigos inseparáveis, em todos os momentos difíceis ele estava ao meu lado, e nos momentos felizes também está sempre próximo.
-Para onde vamos?
-Estou tendo dificuldades com uma pessoa recém desencarnada que não quer aceitar ajuda dos espíritos, daí ofereci a ajuda de alguém que continua viva.
-Ou seja, eu.
Rimos juntos, afinal isso é bem comum, muitos recém desencarnados conseguem ver de forma sutil a diferença entre os dois mundos e se assustam, daí existe um time bem grande de encarnados que faz essa ligação, criando novos amigos e ensinando que nada muda, somente a dimensão.
Ele pegou em minha mão e numa fração de segundos já estávamos no hospital Esperança II que fica nas imediações da crosta terrestre em cima de Curitiba. É um hospital gigante, vários prédios e anexos, a maioria das pessoas que desencana na região física próxima, vem para cá.
Entramos no hospital e fomos diretamente para o quarto onde César estava, nos cumprimentamos e ele logo fala:
-Você é diferente, tem uma luz diferente de todos que conheci.
-É porque eu ainda não morri, continuo viva no planeta terra.
-Você está em coma ou se preparando para morrer?
-Espero que não. Já morri uma vez por 15 minutos e voltei como se nada tivesse acontecido, portanto, não faz muita diferença.
Rimos juntos, ele estava bem nervoso, pois ainda não entende muitas coisas. Nisso Jorge fala:
-Vou deixar vocês se conhecerem, aproveite para perguntar tudo o que você quiser para a Fatima, eu continuarei minha ronda médica.
-Então Cézar, como você se sente nessa nova vida?
-Ainda estou me acostumando. Eu nunca fui religioso, minha mãe era espírita, fiz evangelização, mas assim que fiquei adulto, preferi curtir a vida e sofri um acidente de carro com 40 anos e vim parar aqui. Acredito que só fui ajudado por causa de minha mãe, pois acho que não fiz nada de extraordinário.
-Acredito que sua mãe ajudou, mas o fato de você pedir por ajuda já é um grande passo. Não somos tão ruins assim, pelo menos a maioria de nós. Pelo que Jorge me disse, você não era uma má pessoa, isso também contribuiu para ter um quarto aqui no hospital.
-Fazer o mal eu não fiz, mas também não frequentei nenhuma religião.
-Nem todo mundo precisa da religião para conter suas más tendências, existem pessoas que já possuem o senso de responsabilidade e o bem dentro do coração e mente.
Ele acena com a cabeça, percebo que fica refletindo sobre o que estou falando, aguardo ele voltar da reflexão para perguntar:
-O que você quer saber sobre essa nova forma de viver? Sente falta de algo ou alguém?
-O pouco que lembro da evangelização, está meio esquecido em minha mente. O que devo fazer? Estudar? Trabalhar? conhecer novas pessoas? Encontrar meus parentes que já morreram? São muitas perguntas.
-Como já dizia Jack o estripador, vamos por partes.
Ele solta uma gargalhada e diz:
-Eu sinto falta do humor da terra. O povo daqui é muito sério.
-Não se preocupe, eu falo muito e sou boa piadista. Em relação ao que fazer, gosto muito de seguir a intuição. Neste momento, o que você deseja? pense que sou um gênio da lâmpada e vou te conceder um pedido.
-Estou com saudades da minha esposa e filho, da família toda.
-Permissão para sair você não tem ainda, mas existe uma sala onde podemos vê-los em tempo real, quer ir para lá?
Ele com os olhos úmidos diz que sim.
Fomos até este local que é uma sala individual, onde tem um telão. Ninguém entre sem acompanhamento, pois não é fácil controlar as emoções quando se está recém desencarnado. Programei o computador e as imagens foram aparecendo. César se emociona muito ao ver que sua família também sente sua falta. Ficamos por um tempo ali, para ele matar a saudade e se recompor, depois levei-o para o quarto, onde ele adormeceu profundamente, muito provável dormirá por dias.
Meu trabalho da noite fui cumprido com sucesso, retorno ao meu corpo com a sensação de missão cumprida e já me programei para continuar as visitas e ajudar Cesar no que ele precisar para se integrar nessa nova vida. Muitos acreditam que a morte é o fim de tudo, eu digo que é somente o começo de uma nova jornada, cheia de possibilidades, novos conhecimentos e e novas amizades. A vida sempre continua, a gente querendo ou não.
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