quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Há espera de um milagre

                      Muitas pessoas oram incessantemente por um milagre, quando o maior milagre seria simplesmente levantar-se e caminhar. Muitos esperam que Deus resolva o que o próprio coração se recusa a enfrentar. Esperam que a transformação no seu dia a dia ocorra sem esforço nenhum, que a dor cesse sem compreensão, que o caminho se abre sem ele dar o primeiro passo. A doutrina espírita nos ensina que o milagre, assim como imaginamos, não faz parte das leis divinas.
                    Allan kardec afirma que os milagres não são suspensões das leis da natureza, mas efeitos de causas ainda não conhecidas. Deus ou o universo não viola suas leis para favorecer uns e esquecer de outros. Ele nos concede, a todos, o mesmo campo de aprendizado, o mesmo universo de possibilidades, e dentro disso, cada um deve trabalhar pelo próprio crescimento. Este trabalho faz parte da lei da natureza, e sem ele o homem permaneceria sempre na infância da inteligência. Dessa forma, quando esperamos por milagres, recusamos alei do progresso e queremos que nossa vida mude sem nos amadurecermos.
                      Jesus jamais prometeu milagres à sombra da inércia. Cada cura que realizou, foi, antes de tudo, um convite ao despertar, um chamado para que o homem se erguesse, confiasse e participasse da própria transformação. Sua ação não anulava o esforço humano, mas o inspirava. A fé que ele nos ensinou não é crença passiva, mas movimento da alma em direção à luz. É a força que se revela quando a razão e o coração caminham juntos. A fé que não age, morre, porque toda fé viva se expressa em obras, em renovação, em coragem de recomeçar.
                     O comodismo é o sono da alma. Um repouso enganoso em que o espírito se refugia na sombra da inércia, chamando de fé o medo de agir. É a quietude do ser que confunde resignação com paralisia, paciência com desistência, confiança em dependência. Nesse estado o homem ora para que a providência resolva o seu livre arbítrio que nos recusamos a agir. Dessa forma adormecemos diante da nossa própria responsabilidade espiritual, acreditando que a misericórdia divina nos livrará da lei de causa e efeito.
                      Mas Deus não cria atalhos para os que se negam a caminhar, como nos ensinam os espíritos. Ele é infinitamente bom e justo, a sua justiça não se manifesta por exceções, mas sim, por oportunidades. Cada dor que surge, cada obstáculo que se apresenta, é uma ocasião para despertarmos. O universo não se move a custa de nossa imobilidade, ao contrário, ele se revela pelo nosso movimento. 
                       A fé que espera sem agir é uma flor que nunca desabrocha. A fé que trabalha é a semente que rompe a terra, mesmo em meio às pedras, para encontrar a luz. A providência não envia anjos para varrer o chão de nossas provas, dá-nos força para suportá-las e sabedoria para delas tirarmos o bem.
                       O sofrimento que desejamos evitar é, muitas vezes, instrumento da cura que pedimos, sendo a encarnação o meio pelo qual o espírito se aperfeiçoa através das provas. Assim o que chamamos de dor é, na verdade, um chamado ao progresso, o que chamamos de demora é a oportunidade de aprender a paciência, o que chamamos de fracasso é o treino da humildade.
                        O comodismo de esperar por milagres é, em última instância, a negação da fé raciocinada. Porque quando cremos verdadeiramente em Deus, faz com que aprendemos a compreender que ele já nos concedeu tudo o que necessitamos para transformar a nossa vida, assim como desenvolveremos a razão que ilumina, o livre arbítrio que liberta, o tempo que ensina e a consciência que desperta.        

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